19/04/18

Luta Indígena após 1 ano de ocupação da Funai

Talvane Tremembé pintando durante a XXII assembléia dos povos indígenas na aldeia lagoinhas dos potiguara, em Novo Oriente/CE, 2017 (Foto: Iago Barreto Soares)

Em março de 2017, indígenas cearenses ocuparam a sede da Coordenação Regional Nordeste 2 da Fundação Nacional do Índio, a Funai, em Fortaleza. Durante esse período, a Rádio Universitária FM mostrou através de uma reportagem especial como estava sendo esse processo de ocupação.

Os indígenas denunciavam o desmonte da Funai e as nomeações de cargos dentro da Fundação a pessoas com interesses políticos divergentes às causas dessa população. Mas segundo Rosa Pitaguary, liderança indígena da aldeia Monguba, no Ceará, após um ano desde a ocupação que durou mais de 40 dias, pouca coisa mudou.

“Nós fizemos uma ocupação, uma reivindicação que era exatamente por conta de uma coordenadora que vinha pra Funai e essa coordenadora ela vinha batendo de frente com o movimento indígena e a gente quer que eles venham pra somar. E hoje nós temos um coordenador aí que infelizmente, eu pelo menos não tenho visto muito resultado não. Eu não tenho visto resultado positivo pras terras indígenas, a gente continua com terras indígenas sem demarcação, sem fiscalização.”

E essas reivindicações são dependentes do trabalho realizado pela Funai. No entanto, além das questões de divergência política, as populações indígenas apontam à grande demanda de trabalho da Fundação que nem sempre é cumprida.

Como destaca Weibe Tapeba, Assessor Jurídico da Federação Estadual dos Povos Indígenas do Ceará e membro do Conselho Nacional de Políticas Indigenistas.

“Na Funai hoje se encontram cerca de 100 processos de demarcação de terras indígenas em andamento e essa informação da 100 terras indígenas objetos de estudo ela se mantém a pelo menos 6, 7 anos e gente não consegue dar continuidade, finalizar o processo justamente pela falta de servidores e existem pelo menos 400 áreas reivindicadas para iniciar os trabalhos.”

Dessa forma, a luta constante pela garantia desses direitos passa a ser necessária. E momentos como a Ocupação da Funai em 2017 reforçam a integração de diversas etnias por demandas em comum. Rosa Pitaguary, que acompanhou todo o processo de ocupação, reflete sobre os ganhos desse período para a população indígena.

“Agente lutar por uma bandeira só, unificar mais, apesar de que nós não temos esse apoio, mas nós vimos que nós podemos contar não só nós povos indígenas, mas agente pode contar também com os movimentos sociais, eu percebi que nós fizemos uma aliança, uma aliança muito forte com a questão dos movimentos sociais. Muitos jovens que estavam lá também, eu acho que foi um grande ganho pra nós, ver tantos jovens participando de uma acampamento, participando de uma ocupação daquela, levantando a nossa bandeira. Acho que o fortalecimento nosso enquanto indígena, enquanto defensor da natureza eu acho que isso foi um ganho também.”

Outra forma de fortalecer a luta e promover um resgate histórico das populações indígenas tem sido através de museus. Benício Pitaguary é articulador do Museu Indígena Pitaguary que possui sede nos municípios de Pacatuba e Maracanaú.Ele explica que os Museus dão suporte a um trabalho de resgate histórico que sempre aconteceu nas comunidades indígenas.

“Tudo isso já era feito antes com o mais velhos mas só que de forma oral e também os objetos eles tinham uma relação mais próxima, não era um objeto que estava lá exposto para alguém ir lá ver e “olha isso aqui fazia isso” então os objetos eles eram usuais então a gente falava de uma chanduca, mas os mais velhos usavam a chanduca, então eles diziam pra que servia de onde tinha vindo aquilo de forma oral, mas era uma coisa usual não era uma coisa exposta pra fazer aquilo, a mesma coisa o maracá, o cocar, os colares, as pinturas, tudo isso já era feito mas de maneira usual, não era uma coisa que era separada, exposta pra demonstrar aquilo, era demonstrado na própria prática.”

Benício relata que o museu ao qual articula, trabalha de uma forma diferente da grande maioria dos museus no país, por conta da forte relação com a terra.

“A gente faz uma Museologia de Teritório, ou seja, não são só as peças que estão dentro do museu, não é só o acervo que vão contar a história, mas é todo o território. Então a gente passa por trilhas que antigamente eram trilhas de coleta onde os mais velhos vaziam coleta de frutas, também plantavam em cima então eram trilhas que eles iam para os olhos d’água então a gente está fazendo essa formação nesse sentido, indicando quais são os lugares importantes, os terreiros sagrados que a gente tem no nosso território e também a importância de se preserva e conservar o meio ambiente.”

A utilização da museologia tem se tornado cada vez mais comum entre as populações indígenas no Brasil. E por conta disso, foi criado em 2014 a Rede Indígena de Memória e Museologia Social que tem o objetivo de congregar organizações e iniciativas de memória indígenas do país.

Reportagem de Lucas D’paula com orientação de Carolina Areal

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