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26/12/18

Fortaleza: Cidade da luz e do reggae

A Unesco destacou a contribuição que o reggae teve para a discussão sobre questões como a injustiça, a resistência, o amor e a humanidade (Foto: Reprodução/ O Povo)

No dia 28 de novembro, o reggae tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Nascido no subúrbio da capital da Jamaica, o reggae conquistou a ilha caribenha e o mundo na década de 1960, misturando antigos ritmos jamaicanos, músicas caribenhas, latinas, africanas e norte-americanas.

A Unesco destacou a contribuição que o reggae teve para a discussão sobre questões como a injustiça, a resistência, o amor e a humanidade. “Preserva toda uma série de funções sociais básicas da música – sujeita à opiniões sociais, práticas catárticas e tradições religiosas – e continua sendo um meio de expressão cultural para a população jamaicana como um todo”, publicou a instituição.

O maior nome do gênero, Bob Marley, escreveu sucessos como No Woman No Cry, Redemption Song, entre outras canções que lhe renderam mais de 200 milhões de álbuns vendidos em todo o mundo. Sua música trazia mensagens de protesto, emancipação e busca pela liberdade. Outros músicos jamaicanos também ganharam fama mundial, como Peter Tosh e Jimmy Cliff.

Fortaleza: Cidade da luz e do reggae

Rebel Lion

A expansão do Reggae na capital cearense se confunde com a formação da banda Rebel Lion.  Surgida em 1991, a banda é um dos grandes nomes da cena regueira nacional (Foto: Arquivo Pessoal)

Em Fortaleza o ritmo é assimilado desde os bairros nobres da cidade até as ruas das comunidades. A expansão do Reggae na capital cearense se confunde com a formação da banda Rebel Lion. Surgida em 1991, a banda é um dos grandes nomes da cena regueira nacional. Líder da banda, Gianni Zion conta que pelo fato de querer fazer um grupo autêntico de reggae jamaicano chegou a colocar um anúncio no jornal à procura de músicos negros para compor a banda. “Não obtendo sucesso, acabei formando uma banda multirracial, o que caracteriza a Rebel até hoje, tendo sempre à frente vozes negras”,completa.

O primeiro programa de rádio que tocava exclusivamente reggae foi ao ar em 1995 e se chamava Skollreggae. A apresentação era feita por Gianni Zion e a colecionadora de vinis Zumaika. Posteriormente, eles passaram a apresentar o Reggae Night. “Esses programas inspiraram toda uma geração de colecionadores de reggae, que hoje são os grandes DJs da cena, como Mr Gazos e Rubinho Star”, comenta.

Mas o ritmo jamaicano só obteve um destaque maior com a criação do Canto das Tribos, o primeiro espaço oficial de show de reggae do Ceará. “O clube foi uma iniciativa minha, com os parceiros César Nina e Bidela. A era do Canto das Tribos foi bastante marcante com os shows semanais de todas as bandas locais e a vinda dos maiores nomes do reggae jamaicano e internacional e nacional para Fortaleza”, relata.

Quando o clube chegou ao fim, o reggae já tinha tomado a cidade. Hoje, existem grandes clubes que tocam o ritmo, é o caso do Reggae Club e, mais recentemente, o JamRock. “A expansão no estado teve muito a ver com os shows da Rebel em diversas cidades. Assim como o surgimento de DJs, inspirados pela cena regueira de Fortal”, comenta Gianni Zion.

O Reggae nas praças

A DjAry Sales sempre teve contato com o reggae, quando morava em Boa Vista conheceu o reggaeton e se aproximou mais ainda do reggae e suas vertentes (Foto: Arquivo Pessoal)

A Dj Ary Sales sempre teve contato com o reggae, quando morava em Boa Vista conheceu o reggaeton e se aproximou mais ainda do reggae e suas vertentes (Foto: Arquivo Pessoal)

Todas terça-feira, na pista de skate do Ginásio da Parangaba, acontece a Cururu Skate e Reggae. Comandada pela Dj Ary Sales, a festa começou há dois meses. Ary Sales sempre teve contato com o reggae. Quando morava em Boa Vista (RR), conheceu o reggaeton e se aproximou mais ainda do reggae e suas vertentes. “Quando vim pra Fortaleza foi a primeira vez que tive contato com a dança reggae, antes eu só ouvia reggae, dançava reggaeton, mas o baile daqui eu nunca vi igual, me apaixonei”, conta.

O Dj Romário System decidiu fazer o Resistência Roots após ver alguns projetos culturais em praças. Ele percebeu que o polo do Conjunto Ceará precisava de um projeto assim, então, ao lado de Bruno Roots, realizou as segundas feiras o Resistência Roots. “Tínhamos ajuda de um bar que liberava a energia para o nosso próprio som e acessórios para realizar o projeto”, revela.

Resistência Roots

Reistência Roots acontecia todas as segundas-feiras, no polo do Conjunto Ceará, às 19h (Foto: Reprodução/ Facebook)

Apesar do Reggae ter muitos adeptos na cidade, o preconceito ainda existe. Segundo o Dj Romário System, o Resistência Roots já foi alvo de represálias perante a polícia. “Já tivemos equipamentos apreendidos por conta de uso da força policial. Vejo isso como a falta de apoio dos órgãos públicos, pois estamos fazendo algo que eles deveriam fazer para os jovens e a comunidade”, relata.

Para a Dj Ary Sales, independente de qualquer dificuldade a cena reggae irá crescer. “Principalmente nós, dos movimentos periféricos, não vamos parar, vamos resistir! Porque fazer reggae quando se tem dinheiro é fácil, difícil mesmo é tá na rua, limpando praça para receber os amigos, os amigos dos amigos, botar o som na rua, juntar os djs e 'gerar' com responsabilidade e botar a cara a tapa pra sociedade. Nada mais gratificante que ver todos sorrindo, dançando, sem fazer mal a ninguém, porque é só isso que a gente quer”, comenta.

Saiba mais:

Movimento Rastafári

Nascida na Jamaica nos anos 1930, o movimento Rastafári surgiu entre a classe trabalhadora e os camponeses de origem africana. Atualmente seguida por cerca de 1 milhão de pessoas no mundo, a religião prega a adoração ao deus Jah, que teria reencarnado no século 20 como o imperador etíope Haile Selassie I. Seus seguidores, os rastas, se vestem à sua maneira, não cortam o cabelo e evitam aparar a barba e seguem uma dieta quase vegetariana. Eles também preferem tratamentos com ervas medicinais e abdicam o uso de qualquer droga, menos  a maconha, usada em rituais de meditação.

Verde, amarelo e vermelho

O verde, amarelo e vermelho são as cores da bandeira da Etiópia. O verde representa a natureza, fauna e a flora, o amarelo representa a abundância de minérios presentes na Etiópia e o vermelho simboliza a igreja dos Rastafári, representando também o sangue derramado durante a escravidão.

Reportagem de Mariane Silva com orientação de Carolina Areal

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