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21/12/17

O que os nomes de ruas revelam sobre a nossa história

Apenas cerca de 20% dos logradouros que homenageiam pessoas possuem nomes femininos. Na imagem, sinalização da Rua Maria Tomásia em Fortaleza (Foto: Pedro Vinícius/Coletivo)

O que significa a nomeação de uma rua? Geralmente, os logradouros que trazem nomes de pessoas são vistos como homenagens. O problema é quando essas homenagens destacam pessoas conhecidas por desrespeitar os direitos humanos ou destacam, ainda, majoritariamente personagens masculinos.

O professor Jorge Cintra, do Museu Paulista do Ipiranga, explica os primeiros critérios usados para a nomeação das ruas:

"No início, os nomes são naturais: Rua do Meio, Rua de Cima, Rua de Baixo, Rua da Praia, Beira-Mar, Leste ou Oeste, Passeio Público. O critério era natural e não havia porque a gente trabalhar homenageando pessoas, que é o critério mais atual. Então os nomes comuns eram os que a população precisava, Rua da Quitanda, Rua do Comércio, ou os que levavam às igrejas, como São Bento, Santo Antônio, Rosário".

O professor explica, ainda, como esses critérios para a nomeação das ruas mudaram ao longo do tempo:

"Depois vem, então, a época das comemorações. Nós vamos comemorar, por exemplo, a Guerra do Paraguai, a vitória nesse embate. Às vezes, isso pode vir também por datas, como 30 de janeiro, 25 de março, 7 de abril, 13 de maio, mas não tem muito sentido porque as pessoas, muitas vezes, não conhecem o porquê, o que aconteceu em cada um desses dias".

O Brasil tem mais de 800 mil logradouros. Nesse número estão incluídos, além de ruas e avenidas, praças e demais espaços públicos. De acordo com um levantamento feito pelo portal Gênero e Número, apenas cerca de 20% dos logradouros que homenageiam pessoas possuem nomes femininos.

O Coletivo Aparecidos Políticos realizou, em 2015, um mapeamento dos logradouros fortalezenses com nomes ligados à Ditadura Militar, e realizou intervenções artísticas nesses locais (Foto: Divulgação)

O Coletivo Aparecidos Políticos realizou, em 2015, um mapeamento dos logradouros fortalezenses com nomes ligados à Ditadura Militar, e realizou intervenções artísticas nesses locais (Foto: Divulgação)

A professora Penha Mara Nader realizou uma pesquisa em Vitória, capital do Espírito Santo, sobre a discriminação de gênero nas ruas da cidade. Para ela, esse ainda é um fator esquecido pela sociedade:

"Apesar dos muitos avanços que podem ser registrados na longa luta das mulheres pela emancipação, ainda é possível observar que permanecem na nossa sociedade muitas discriminações de gênero, algumas ainda até encobertas, de maneira sutil, e é preciso muita perspicácia pra desvendar cada discriminação. Uma delas, a gente pode observar, é esse ato de nomear os logradouros públicos da cidade. Essa pesquisa foi realizada em Vitória, mas é uma tradição universal nomear os logradouros públicos, os nomes das ruas, das praças, avenidas e afins".

Além disso, a professora destaca que a porcentagem de mulheres que nomeiam avenidas e ruas importantes, por exemplo, é ainda menor:

"Quando se trata de um logradouro de maior importância, por exemplo, avenidas, têm menos nomes de mulheres, e quando vai diminuindo o grau de importância, como ruas, escadarias, praças, becos, aumenta um pouquinho. Dá pra observar essa discriminação também. Aqui em Vitória, a gente vê que as três principais avenidas que têm nomes femininos não são de mulheres, mas ligados à tradição religiosa, como Avenida Nossa Senhora da Vitória. Então, não é um nome de uma mulher que se destacou na nossa cidade, mas relacionado à religião".

Além da baixa representatividade feminina, outro fator que incomoda parte da população é o grande uso de nomes relacionados à Ditadura Militar. Por isso, em 2015, foi feito um mapeamento com alguns dos logradouros fortalezenses com nomes ligados ao regime ditatorial. Marquinhos Abu, do Coletivo Aparecidos Políticos, responsável pelo mapeamento, explica como o projeto foi pensado:

"A ideia era fazer esse mapeamento e destacar 10 pontos. Esse é um destaque, não vou dizer aleatório, mas a gente queria fazer 10 intervenções nesses pontos, dentre os 37 que a gente conseguiu localizar. A gente entende que é bem mais, e a gente não conseguiu fazer com que o material chegasse às escolas do jeito que a gente gostaria, porque precisa de vontade política. Um coletivo de artistas propõe algo e tenta fazer isso em conjunto público, mas o poder público precisa ter vontade. Então ele surge nessa pegada de fazer com que a sociedade tenha essa referência de repressão e resistência, mas que esse olhar seja um olhar crítico, não só um olhar da memória, repensar porque essas coisas aconteceram e porque elas voltaram a acontecer".

A nomeação das ruas varia de acordo com as legislações estaduais. No entanto, é possível que a comunidade leve sugestões à Câmara Municipal de Vereadores.

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