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27/11/18

Por que os AVCs afetam tantas pessoas?

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é a segunda maior causa de morte no Ceará, perdendo apenas para a violência, em relação ao número de vítimas (Foto: Reprodução/ Internet)

Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 17 milhões de pessoas morreram devido a doenças cardiovasculares em 2015. Destas mortes, quase sete milhões foram ocasionadas por Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs). Mas afinal, você sabe o que é o AVC?

O neurologista Fabrício Lima, professor do curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor) e chefe da Unidade de AVC do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), explica o que realmente é o Acidente Vascular Cerebral e os seus tipos. “É uma doença que afeta os vasos que irrigam o nosso cérebro. Ele pode ser isquêmico, que é o mais comum, onde um vaso é entupido, causando uma interrupção do fluxo de sangue para uma região do cérebro; ou ele pode ser hemorrágico, quando o vaso se rompe, causando um sangramento no interior do cérebro”, relata.

O neurologista também informa sobre como estes coágulos são formados. “Eles podem sair, por exemplo, do coração; ou podem se formar a partir de uma placa de gordura, presente em um dos vasos do pescoço, que se rompe e gera esse coágulo também. Então ele sobe, chega até o cérebro, onde os vasos vão ficando cada vez menores, e causa esse entupimento”, explica.

O AVC isquêmico é formado por uma interrupção no fluxo de sangue, em alguma região do cérebro, ocasionado por um coágulo (Foto: Reprodução/ Internet)

O AVC isquêmico é formado por uma interrupção no fluxo de sangue, em alguma região do cérebro, ocasionado por um coágulo
(Foto: Reprodução/ Internet)

No entanto, este tipo de AVC não é conhecido por ser o de maior gravidade. “O isquêmico é mais comum, aproximadamente 80% de todos os casos. Mas de uma forma geral, o AVC hemorrágico é mais grave, tem uma mortalidade maior. Entretanto, os AVCs isquêmicos também têm um teto de gravidade bem amplo, eles podem deixar poucas sequelas, mas também podem ser extremamente graves, com a mortalidade muito alta”, declara Fabrício Lima.

Entre os principais sintomas associados à doença estão as alterações na visão; dificuldade de fala; adormecimento ou paralisia dos músculos da face e outros membros, de um lado do corpo; desequilíbrio; tontura e falta de coordenação.

Tratamentos e Sequelas

De acordo com o neurologista Fabrício Lima, cerca de 1800 a 1900 pessoas com o diagnóstico de AVC chegam à emergência do HGF por ano, que é referência no tratamento de Acidentes Vasculares Cerebrais em todo o Norte e Nordeste. Deste total, metade é admitida na Unidade e, aproximadamente,  300 a 400 pessoas chegam ao hospital em tempo hábil para realizar os tratamentos necessários.

Tais tratamentos podem ser feitos por meio de medicações, que têm o intuito de dissolver os coágulos que interrompem o fluxo de sangue; ou por meio de procedimentos cirúrgicos, onde ocorre a retirada mecânica dos coágulos ou do sangue acumulado dentro do crânio.

Mas um dos fatores mais decisivos quando se fala em Acidente Vascular Cerebral é o tempo, segundo o chefe da Unidade de AVC do HGF, Fabrício Lima. “Uma vez tendo os sintomas, é extremamente importante procurar atendimento médico o mais rápido possível. É ainda frequente as pessoas esperarem uma melhora em casa, quando o certo é que se façam os tratamentos ainda nas primeiras horas após o AVC. Desta forma, os pacientes podem ficar com pouca ou nenhuma sequela”, enfatiza.

É o caso de José Donato Silva, de 66 anos. Ele teve um AVC há cerca de cinco anos, enquanto dormia, e foi imediatamente socorrido pelo filho, o artista Felipe de Paula. “Ele estava babando, como se tivesse tido uma convulsão, estava com os olhos abertos, mas não falava e parecia bem perdido. Então, nós o levamos ao hospital do coração, porque imaginamos que pudesse ser algum problema cardíaco, só que ele fez os exames e não apareceu nada. Mas em seguida ele teve outra convulsão e o médico disse que provavelmente era um AVC e nos mandou para o HGF”, conta.

José Donato Silva e seu filho, o artista Felipe de Paula (Foto:Arquivo Pessoal)

José Donato Silva e seu filho, o artista Felipe de Paula (Foto:Arquivo Pessoal)

Ao chegar no Hospital Geral de Fortaleza, seu pai fez os exames, que diagnosticaram a ocorrência de dois AVCs mais leves e, em cerca de 30 minutos, começou a tomar as medicações necessárias. Hoje, José Donato faz uso de medicamentos para prevenir novos AVCs e segue sem sequelas.

No entanto, esse quadro não é tão comum. Segundo Fabrício Lima, de 70 a 80% das pessoas acometidas pela doença apresentam sequelas e sua gravidade varia de acordo com a extensão do cérebro afetada e a área em que ocorre. “Se o lado esquerdo do nosso cérebro for acometido, por exemplo, é muito frequente que a pessoa apresente dificuldade para falar, ler, compreender. Da mesma maneira, pessoas que têm AVCs do lado direito do cérebro demonstram outras características, como a dificuldade de reconhecer formas; de se localizar no ambiente; e, até mesmo, de reconhecer partes do próprio corpo, que leva a problemas na hora de se vestir, fazer a barba. AVCs que acometem a parte posterior do cérebro, por exemplo, podem causar problemas na visão. Não existe um local pior ou melhor, são apenas sequelas diferentes, que causam impactos diferentes”, exemplifica o neurologista.

Fatores de Risco

Somente no estado do Ceará, os Acidentes Vasculares Cerebrais são a doença que mais causa mortes. Eles perdem apenas para a violência, em relação ao número de vítimas. Mas será que essa doença tão séria pode ser evitada? Entre os fatores de risco mais associados ao AVC estão a pressão e o colesterol altos, diabetes, obesidade, tabagismo, alcoolismo e estresse.

Segundo o neurologista Fabrício Lima, a pressão alta é um dos fatores de risco mais associados à ocorrência de AVCs (Foto: Reprodução/ Internet)

Segundo o neurologista Fabrício Lima, a pressão alta é um dos fatores de risco mais associados à ocorrência de AVCs (Foto: Reprodução/ Internet)

Foi justamente um destes fatores que ocasionou a doença em José Donato Silva. “O médico falou que meu pai sobreviveu porque não fumava, porque normalmente o AVC afeta outra região do cérebro em quem fuma. Mas ele disse que provavelmente o que o causou foi o consumo excessivo de álcool, porque meu pai era alcoólatra”, é o que conta seu filho, Felipe de Paula.

Fabrício Lima acredita que a falta de controle sobre estes fatores de risco é a causa do número tão elevado de Acidentes Vasculares Cerebrais. “Às vezes as pessoas não sabem que são hipertensas, diabéticas, que têm colesterol alto, então elas não procuram atendimento médico de uma forma mais precoce, para saberem que existem determinados problemas de saúde. E mesmo quando elas sabem que são portadoras de algum desses problemas de saúde, as pessoas não aderem ao tratamento, não usam as medicações de forma correta, não seguem as indicações dos profissionais de saúde. Além do acesso ao Sistema Único de Saúde, que ainda é difícil”, ressalta o chefe da Unidade de AVC do HGF.

Reportagem feita por Maryana Lopes com orientação de Carolina Areal

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