09/07/20

A História entre destruir ou preservar a memória

"Churchill era racista", diz pixo em estátua alvo de manifestantes durante protesto (Foto: Peter Nicholls/Reuters)

Inglaterra: uma multidão em Bristol derruba uma estátua de Edward Colston, patriarca da cidade, e a lança em um rio. França: estátuas de Hubert Lyautey, ministro durante a Primeira Guerra Mundial, e Voltaire, pensador iluminista, são pintadas com tinta vermelha durante protestos em Paris. Estados Unidos: estátua de Cristóvão Colombo, "descobridor" das Américas, é decapitada por manifestantes. 

O que esses homenageados com estátuas tinham em comum? De alguma forma, todos estavam ligados a práticas escravocratas ou lucraram com a exploração colonial em outros territórios. Protestos contra esses monumentos que exaltam “heróis” cercados de controvérsias se espalharam pelo mundo e acenderam um debate sobre preservação do patrimônio histórico e cultural. 

Esses movimentos contra estátuas e outros monumentos públicos “ganharam força a partir dos recentes protestos que ocorreram nos Estados Unidos. São protestos contra a morte de George Floyd, um cidadão negro morto por policiais. Multidões foram para as ruas, e essa massa passou a questionar vários monumentos, principalmente os com passado racista”, esclarece o historiador Airton de Farias.

Esse costume de honrar alguém erguendo construções em sua memória faz parte da história da humanidade há séculos, se intensificando na metade do século XIX, na França, em um fenômeno que ficou conhecido como estátua mania, a prática de construir várias estátuas em homenagem a pessoas importantes para o país.

Estátua de Robt Milligan, um comerciante de escravos, com um cartaz do movimento Vidas Negras Importam (Foto: John Sibley/Reuters)

Estátua de Robt Milligan, um comerciante de escravos, coberta por um cartaz do movimento Vidas Negras Importam (Foto: John Sibley/Reuters)

De acordo com o professor de História Altemar Muniz, da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central da Universidade Estadual do Ceará (UECE), essa política de construir monumentos perpassou a história da humanidade como forma de materializar as conquistas e feitos das civilizações. “A força da História metódica no século XIX, e a importância desta disciplina para a formação de identidades sociais e institucionais produziu uma compreensão de diversos setores sociais que seus ideais e narrativas poderiam se materializar em monumentos públicos”, explica Altemar.

Já Ricardo Oriá, ex-professor do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC) e consultor legislativo da área de educação e cultura da Câmara dos Deputados, acrescenta ainda que há um intuito de construção de uma memória nacional por trás dessa política. Segundo ele, “o objetivo é o de criar nos cidadãos uma noção de um pertencimento a uma história comum, um passado homogêneo. A estátua mania serve como pedagogia da nação”.

A memória como política

Em outra perspectiva, a homenagem com monumentos públicos vai além da elaboração de uma história comum. Ela foi, e continua sendo, um artifício utilizado pelas elites sociais como forma de se reafirmar como classe dominante. Para além de estátuas e outras esculturas, isso é perceptível também com nome de ruas, praças, parques e avenidas, que na grande maioria das vezes referenciam políticos, médicos, engenheiros, advogados e outros profissionais que compõem a elite intelectual de determinado lugar.

Sônia Meneses, professora de História da Universidade Regional do Cariri (URCA), se debruça sobre essa discussão. “É muito comum a gente passar por esses lugares e encontrar nomes, quase sempre de homens, de políticos ou de figuras que de alguma maneira representam esses laços mais evidentes de poder. Há a intenção de construção de uma memória ‘oficial’, que quase sempre exclui essas outras memórias periféricas”, pontua.

De fato, classes e grupos sociais mais periféricos, portanto mais distantes do poder, foram sistematicamente deixados de lado nessa construção do imaginário público. Um exemplo claro é o fato de que o primeiro monumento público brasileiro homenageando uma figura negra, a de Zumbi dos Palmares, só foi erguido em 1986, no Rio de Janeiro.

Monumento Zumbi dos Palmares, o primeiro em homenagem a uma pessoa negra no Brasil  (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Monumento Zumbi dos Palmares, o primeiro em homenagem a uma pessoa negra no Brasil (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Destruir ou preservar

Como forma de serem ouvidos e de combaterem essas homenagens a quem os oprimiu ao longo da história, as camadas mais excluídas da sociedade se manifestaram, em 2020, depredando ou derrubando monumentos de bandeirantes, mercadores de escravos e outras figuras controversas.

Mas a questão que se colocou para a sociedade, sobretudo para os historiadores, se refere ao valor desses monumentos enquanto patrimônio cultural e registros históricos que documentam um certo período. “Acho que historiadores não defendem a derrubada de símbolos por mais dolorosos que sejam. Os campos de concentração nazistas e os antigos centros de tortura transformados em memoriais são exemplos do que quero dizer”, defende o professor Altemar Muniz (UECE).

A professora Sônia Meneses (URCA) complementa, explicando que "uma estátua é um artefato do passado, então ela tem várias camadas de significado e de sentido. Isso faz com que ela possa ganhar uma série de reflexões e questionamentos ao longo do tempo. Muitos historiadores defendem que esses monumentos devem ser preservados no sentido de que eles podem gerar uma reflexão crítica desse próprio passado”.

Estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo, é um dos alvos dos protestos no Brasil (Foto: Reprodução/Internet)

Estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo, é um dos alvos dos protestos no Brasil (Foto: Reprodução/Internet)

Nesse sentido, a maioria dos historiadores defende que esses monumentos sejam transferidos para outros espaços, como os museus. “É um modo de atender as pessoas que estão questionando o porquê dessas homenagens a indivíduos de um passado ‘questionável’ e ao mesmo tempo preservar essas obras para que as gerações futuras saibam onde estava aquela estátua, porque ela está no museu e porque que essa mudança aconteceu”, explica o historiador Airton de Farias.

O assunto virou pauta no poder público. No dia 24 de junho, a deputada estadual de São Paulo Erica Malunguinho (PSOL) propôs um projeto de lei a favor da retirada de estátuas e monumentos “que prestem homenagem a escravocratas ou eventos históricos ligados a prática escravagista” de locais públicos, sugerindo justamente que eles fossem realocados em espaços como museus.

Assim, os historiadores ressaltam que o passado precisa ser estudado e compreendido, para que os erros anteriores não se repitam hoje, e os monumentos podem ser ponto de partida para esses estudos. “O monumento é um documento. Ele possui uma narrativa histórica e precisamos estar atentos para entender o que ele quer nos dizer. Cabe a nós interrogá-lo”, enfatiza o consultor legislativo Ricardo Oriá.

Reportagem de Fabrício Girão

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