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02/10/18

Projetos que promovem a acessibilidade cultural

O projeto de extensão da UFC Fotografia Tátil busca promover a inclusão e difusão da arte através da fotografia (Foto: Reprodução/Internet)

A arte tem a função de promover a transformação social e a inclusão de todas as pessoas. Ainda assim, pouco se fala sobre acessibilidade cultural, ou seja, como as pessoas que possuem algum tipo de deficiência conseguem apreciar e produzir a arte.

Para se ter uma ideia, quase 24% da população brasileira é composta por pessoas com algum tipo de deficiência. De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística o IBGE, o Brasil possui 45 milhões de Pessoas com Deficiência.

Existem algumas ações e projetos em Fortaleza que estimulam o acesso cultural dessas pessoas como o Grupo de Teatro Olho Mágico. A iniciativa foi do médico geriatra, mágico, ator e diretor Marcos Queiroz que teve a ideia na disciplina “Encenação” quando cursava a graduação de Teatro da UFC. O médico conta como surgiu o Grupo de Teatro Olho Mágico:

“Eu resolvi fazer uma encenação dentro de uma técnica de teatro que é para pessoas cegas,  o Teatro dos Sentidos. É um teatro onde as pessoas cegas participam do espetáculo e as pessoas que enxergam vão vendadas para ter uma experiência do que é o cego na sua experiência do dia a dia. A peça tinha dois cegos no elenco e no caso são os cegos fazendo teatro para as pessoas que enxergam, como nós chamamos na linguagem desse espetáculo são os videntes”.

18 integrantes participam dos ensaios que ocorrem três vezes por semana. O médico e ator Marcos Queiroz explica a importância do projeto para as pessoas com deficiência:

“Dois grandes objetivos nós temos nesse projeto: um é a inclusão social do cego e a outra a inclusão cultural do cego, a outra é fazer com que as pessoas, no caso dos videntes, passem a perceber como funciona o mundo dos cegos”.

Clarissa Costa atua com o bailarino Jhon Morais e eles oferecem oficinas de libras e dança no projeto Verdeouvir (Foto: Luiz Alves)

Clarissa Costa atua com o bailarino Jhon Morais onde eles oferecem oficinas de Dança-Libras e dançam no projeto Verdeouvir (Foto: Luiz Alves)

Outro exemplo de projeto que incentiva a acessibilidade é o Verdeouvir da bailarina Clarissa Costa. A iniciativa partiu de um processo de pesquisa iniciado ainda no período da graduação em Dança na UFC. Clarissa explica o objetivo central do Verdeouvir:

“Com outras técnicas corporais em que a libras se mantivesse e dessa vez a gente tivesse os pretextos dramatúrgicos fossem questões relacionadas à cultura surda como mitos que envolvem a cultura surda e um trabalho que tenha bastante visualidades, e use realmente a libras como uma técnica corporal, não para traduzir uma cena, mas para fazer de um modo que se estabeleça diálogos dançantes com essa língua que é tão corporal, tão visual”.

Clarissa atua com o bailarino Jhon Morais e eles oferecem oficinas de Dança-Libras. A bailarina aponta o desafio de estabelecer a libras como a primeira linguagem de comunicação do projeto:

“Como traçar essa comunicação, essa porta de abertura que seja passagem realmente acessível da cultura surda e cultura ouvinte? Como chamar meus colegas surdos, professores surdos para estar junto com a gente? Como a gente chega até eles de uma maneira mais fluída que não seja assistencialista, que não seja colocando o surdo como o menor, como o mais frágil, como aquela pessoa que precisa de ajuda e não sabe chegar num lugar sozinho”.

Existem algumas ações e projetos em Fortaleza que estimulam o acesso cultural de pessoas com deficiência, como o Grupo de Teatro Olho Mágico (Foto: Evilázio Bezerra/O POVO)

Existem algumas ações e projetos em Fortaleza que estimulam o acesso cultural de pessoas com deficiência, como o Grupo de Teatro Olho Mágico (Foto: Evilázio Bezerra/O POVO)

Outro projeto que incentiva a acessibilidade cultural é o Fotografia Tátil, um projeto de extensão da UFC. Criado em 2015, a ação busca promover a inclusão e a difusão da arte. O professor do curso de design da UFC e coordenador do projeto, Roberto Vieira, conta como surgiu a ação:

“Eu comecei a refletir sobre a questão do cego e como seria possível criar algum projeto de inclusão onde eles pudessem se inserir no meio artístico de alguma forma e produzir algum material e que esse material pudesse ser comercializado e pudesse gerar recursos próprios. Faria todo sentido realizar oficinas de fotografia para cegos e materializar essas peças na oficina digital e que essas peças pudessem ser apreciadas pelo tato e o processo seria completo”.

 O professor aponta os desafios enfrentados pelo projeto:

“Tentar trabalhar todas as etapas do processo, desde a inclusão do cego como ator principal, embora seja possível tornar uma exposição acessível, tornar o Museu de Arte da UFC acessível, mas se quiser ele também ser o fotografo, ele tirar a foto, ele fazer a exposição dele, que essas fotos sejam materializadas, então além de tornar um espaço, uma exposição acessível também permitir que essa pessoa ao ter contato com a arte que ele também possa produzir arte”.

De acordo com o Artigo 215 da Constituição Brasileira, é dever do Estado garantir a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional.

Reportagem de Karoline Sousa com orientação de Carolina Areal.

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