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28/05/19

Narrativas sonoras digitais: da radionovela ao podcast

O audiolivro A Guerra dos Tronos é um lançamento da editora Tocalivros (Arte: A Song of Ice and Fire, de Stefan Kopinski/Reprodução)

O cenário de produções sonoras vêm se reconfigurando nas últimas décadas. Com a ascensão da internet, novos formatos e recursos começaram a ser explorados. O público passou a consumir produtos em diversas plataformas, não se limitando apenas à programação radiofônica. Com uma produção cada vez mais intensa, apostar em narrativas mais complexas e ricas em recursos é a estratégia adotada por muitos produtores de conteúdo para cativar o público.

Um exemplo de inovação em narrativas sonoras é o audiolivro A Guerra dos Tronos, do autor George R. R. Martin, que deu origem ao seriado Game of Thrones, da HBO. O audiolivro retrata o primeiro exemplar da série As Crônicas de Gelo e Fogo e foi produzido pela Tocalivros. O projeto conta com dois narradores e um time de 28 atores, que dão voz aos personagens da trama. Clayton Heringer, produtor artístico da Tocalivros, explica o processo de produção do audiolivro:

"A gente percebeu que os personagens são muitos, iam entrelaçar. Mesmo um narrador dinâmico, que possa proporcionar diversos tipos de voz, não ia dar conta de inúmeras interpretações, então a ideia foi trazer, da mesma forma que a série tem uma vida, em diferentes aspectos, diferente construção de personagens, a gente também fez as construções através dos diálogos. Então são dois narradores, uma voz masculina para narrar todos os personagens títulos masculinos da obra, e a narradora que narra os personagens títulos femininos, dando assim a emoção certa e a colocação certa. E os outros atores e atrizes vêm para somar com a construção desses personagens, aí o diálogo fica dinâmico, fica vivo, e o ouvinte pode apreciar e adentrar cada vez mais na história".

A radionovela O Quinze foi produzida pela Rádio Universitária FM em parceria com o campus de Fortaleza do IFCE (Foto: Francisco da Costa/Divulgação)

A radionovela O Quinze foi produzida pela Rádio Universitária FM em parceria com o campus de Fortaleza do IFCE (Foto: Francisco da Costa/Divulgação)

A radionovela é um formato que alcançou enorme sucesso no século passado e que precisou se adaptar às novas plataformas e tecnologias para se inserir no cenário atual. Caio Mota, coordenador de programação da Rádio Universitária FM, explica a importância dessa adaptação:

"As radionovelas foram muito famosas na época de ouro do rádio, que é mais ou menos ali década de 1930, 1940, até 1950, quando já foi caindo um pouco mais com a chegada da TV, e aí elas foram esquecidas durante um bom tempo, e da década de 1990 para cá, vem tendo um movimento, principalmente de rádios públicas, rádios educativas, de voltar com esse modelo. Agora como a radionovela se mantém no cenário de hoje? Ela tem que se adaptar a essas novas tecnologias, então quando a gente coloca uma radionovela no ar aqui na Rádio Universitária, a gente imediatamente coloca no nosso Soundcloud, a gente coloca disponível na internet também, porque é uma coisa da modernidade mesmo. Você tem que ter acesso aos conteúdos, principalmente conteúdos educativos, no momento que você quiser. Aquela ideia de que a pessoa senta com a família para ouvir rádio ou para ouvir uma radionovela já não existe mais".  

O podcast é um exemplo de formato que vem ganhando popularidade entre o público. Essas produções são transmitidas através da internet e se assemelham a programas de rádio consumidos sob demanda. No Brasil, o tipo mais popular de podcast é o de conversa informal, no qual os participantes discutem sobre algum assunto na forma de bate-papo.

Um segundo modelo, popular entre os podcasts produzidos nos Estados Unidos, é o de storytelling. Esse formato propõe uma experiência mais imersiva ao público, contando uma história com recursos que se aproximam de técnicas literárias e cinematográficas, a partir do ponto de vista dos personagens e de um roteiro.

O Projeto Ninguém utiliza o formato de storytelling para narrar histórias do Brasil a partir do ponto de vista de japoneses.

O projeto Ninguém utiliza o formato de storytelling para narrar histórias do Brasil a partir do ponto de vista de japoneses (Foto: PQPCast/Reprodução)

O projeto Ninguém:人間 é um exemplo de podcast de storytelling brasileiro, que conta histórias do Brasil e da língua portuguesa a partir do ponto de vista do povo japonês. O nome do projeto vem do fato de as histórias serem contadas por pessoas desconhecidas do grande público: "ninguéns". Mau Hernandes, idealizador do projeto, explica como tudo começou:

"O projeto surgiu comigo aqui, morando no Japão há mais de cinco anos na época e tendo contato com uma porção de histórias de japoneses que tinham a experiência de passar, de viver muito tempo no Brasil. E aí eu comecei a perceber quanta riqueza que isso trazia, porque eu, pelo menos, quando morava no Brasil, nunca achei o Brasil um país incrível, como na verdade ele é. Então eu precisei vir morar aqui fora, encontrar essas pessoas que foram descobrir o Brasil, essas pessoas que moraram do outro lado do mundo e achavam no Brasil uma coisa tão interessante. Isso me permitiu contar histórias do Brasil de coisas bem pequenas mas muito interessantes, que às vezes por a gente morar e ter contato tão vívido, tão próximo, a gente não acha tão interessante".

O projeto Ninguém:人間 conta atualmente com 9 episódios e mais de 12 mil reproduções no Soundcloud.

Reportagem por Caroline Rocha com orientação de Carolina Areal e Igor Vieira

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