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22/10/19

Câncer de mama pode afetar pessoas transexuais

O estudante trans Thiago Peniche lançou em seu canal no YouTube uma série de vídeos alertando para o risco de câncer de mama em pessoas transexuais (Foto: Reprodução da Internet)

Todos os anos, o outubro rosa nos lembra da importância de prevenção ao câncer de mama. Mas as campanhas de conscientização geralmente focam em mulheres cisgênero, ou seja, mulheres que se identificam com o gênero biológico, já que elas formam o grupo mais afetado por esta doença. Porém, outra parte da população também pode ser afetada pelo câncer de mama: as pessoas transexuais.

A médica Cristiane Coutinho, chefe do ambulatório de Mastologia da Maternidade Escola Assis Chateaubriand da UFC, alerta sobre os riscos que homens e mulheres transexuais podem sofrer após o tratamento hormonal:

“Os homens, a partir do momento que eles começam, os homens trans, né, a partir do momento que eles começam a tomar hormônios, aumenta realmente o risco para o desenvolvimento do câncer de mama masculino. Porque o uso de hormônios influencia no tecido mamário de uma certa forma para essa transformação celular que termina com o acometimento da neoplasia. Mulheres que também fazem... Mulheres trans, também, elas têm o tecido mamário da mesma forma que a mulher não trans, têm a mama totalmente desenvolvida, então o risco dela, independente de como ela vá se comportar sexualmente, é o mesmo da mulher ‘hétero’, digamos assim.”

Ilustração de Stela Woo para o site Metrópoles

Ilustração de Stela Woo para o site Metrópoles em alusão à Campanha Outubro Rosa

Apesar das orientações médicas, as pessoas trans relatam dificuldades em fazer exames periódicos. Ambulatórios e funcionários não estão preparados para atender essa parte da população, que se sente constrangida nesses espaços e tem medo de sofrer alguma violência, seja verbal ou institucional.

O estudante de direito Léo Paulino, homem trans e Coordenador do IBRAT - Instituto Brasileiro de Transmasculinidades, conta como uma simples confusão com o nome social do paciente pode causar constrangimento:

“A profissional que faz esse exame está muito acostumada a ter mulheres cis lá [no consultório]. Mesmo que estas profissionais tenham uma capacitação, acontece de elas se confundirem. Porque na ficha tem nome social, nome civil, e às vezes tem o nome da mãe também. Então elas podem se confundir e chamarem o nome civil, e o rapazinho levantar e ficar todo constrangido por ter ido lá e ser exposto em seu nome civil. Algumas funcionárias se recusam e alegam religiosidade. Só que ela é uma funcionária pública! Esse é um tipo de violência, a violência institucional. Fora as violências pessoais, que são dirigidas diretamente a você por estar em um local que as mulheres cis entendem como privado delas, e também não te reconhecem enquanto homem e tudo mais.”

Uma pesquisa realizada em 2016 pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul mostrou dados alarmantes sobre a relação entre médicos e pacientesParticiparam da pesquisa 620 pessoas transexuais, entre 18 e 64 anos, e 43,2% dos entrevistados disseram evitar serviços de saúde pelo simples fato de serem pessoas trans. 58,7% afirmaram terem sido vítimas de discriminação durante o atendimento médico e relataram que só procuram um hospital em último caso. Ainda de acordo com a pesquisa, apenas 17,8% disseram nunca ter sofrido discriminação durante uma consulta.

Outra pesquisa, realizada pela University Medical Center, em Amsterdã, constatou que mulheres trans, na Holanda, têm 47 vezes mais chances de contrair câncer de mama que homens cisgênero.

Em pesquisa realizada com 620 pessoas transexuais, entre 18 e 64 anos, 43,2% dos entrevistados disseram evitar serviços de saúde pelo simples fato de serem pessoas trans (Foto: Reprodução/Internet)

Em pesquisa realizada com 620 pessoas transexuais, entre 18 e 64 anos, 43,2% dos entrevistados disseram evitar serviços de saúde pelo simples fato de serem pessoas trans (Foto: Reprodução/Internet)

De acordo com Bruna Benevides, mulher trans e Secretária de Articulação Política da ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais, essas pesquisas são quase inexistentes no Brasil:

“Na saúde de pessoas trans, a gente ainda sofre de uma carência de dados, de acompanhamento, de protocolo de atendimento, visto que nós ainda não estamos sendo enxergadas como corpos possíveis de existir. Nem na própria formação médica, quanto mais quando a gente vai pensar no atendimento clínico ou na rede básica de saúde. Então a gente vê uma população que não consegue acessar a saúde e por conta disso tem agravo na sua saúde, tem dificuldade de acessar o sistema único e, infelizmente, isso também impacta na nossa estimativa de vida que é de 35 anos.”

Bruna também reforça a inclusão de mulheres trans nas campanhas de prevenção do câncer de próstata:

“E mês que vem o mesmo, né? A gente vai ter o Novembro Azul, e mulheres transexuais e travestis têm próstata, precisam estar incluídas nessas campanhas também. Então é muito importante entender que essa não é uma luta da ANTRA, que essa não é uma luta das pessoas trans. É uma luta de toda sociedade, dos profissionais de saúde e, principalmente, uma luta para garantir saúde de qualidade para todos, todas e ‘todes’!”

Reportagem de Gambit Cavalcante com orientação de Carolina Areal e Igor Vieira

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