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29/10/18

A produção de videoclipes no Brasil

O clipe de Thriller, do cantor estadunidense Michael Jackson ,inaugurou a era de clipes com orçamentos estratosféricos e superprodução (Foto: Reprodução/Internet)

Não se sabe ao certo quando surgiram os videoclipes, mas a banda britânica The Beatles foi pioneira em mesclar cinema com a música. Incomodada com os gritos histéricos das fãs que dificultavam a performance das músicas, a banda decidiu substituir as apresentações ao vivo na TV por gravações. Mas a primeira experiência de um videoclipe produzido com o objetivo claro de divulgar um disco foi da música Bohemian Rhapsody, do Queen, em 1975.

Mas foi só nos 80 que o videoclipe chegou no seu ápice, principalmente com a criação da MTV (canal de televisão estadunidense especializado em clipes). Naquele período, os videoclipes tinham bastante influência da publicidade, com cenas de tecidos esvoaçantes, cavalos e espelhos se quebrando, por exemplo. Na mesma década, houve outra transformação. Com o clipe de Thriller, Michael Jackson inaugurou a era de clipes com orçamentos estratosféricos e superprodução.

Produtoras no Brasil

O primeiro videoclipe exibido de um artista brasileiro foi América do Sul, de Ney Matogrosso. Na produção, o cantor aparece no meio de uma floresta cantando em cima de uma pedra. O clipe também possui cenas dentro de um helicóptero. De lá pra cá, os videoclipes ganharam uma importância maior na vida dos artistas, e muitos deles preferem investir mais em clipes que em álbuns. Um grande exemplo é a cantora Anitta, que possui 4 álbuns e 37 vídeos musicais.

Outro exemplo é a produtora Kondzilla, o 4° maior canal do mundo especializado em videoclipes. Com mais de 20 bilhões de visualizações, o canal é responsável pelo sucesso de MC Fioti, Bum Bum Tam Tam, o primeiro vídeo brasileiro a chegar a 1 bilhão de visualizações. Para o diretor Pedro Antino, os números de Kondzilla mostram uma tendência que está crescendo. “Para o artista, é uma grande oportunidade de expandir sua essência. Também, falar por imagens, olhares, sorrisos e lugares físicos. Cria maior empatia com o público. Dá rosto à voz”, explica.

O diretor e músico Roger Capone é um dos fundadores da PlataformaZEROFilmes, uma produtora cearense especializada em trabalhos musicais. Ela nasceu da necessidade que o diretor tinha para produzir videoclipes da sua banda. Desde a criação da produtora, o diretor Roger Capone diz que sempre pensou que futuramente o clipe seria tão importante quanto a música e, para ele, esse momento chegou. “As pessoas querem ver e ouvir. Elas não querem apenas escutar, querem ver um sentido naquilo que estão escutando e o videoclipe ajuda a passar isso”, esclarece.

As mulheres também fazem parte desse mercado. É o caso da produtora Ganga.Prod, de São Paulo. Especializada em rap, a produtora é composta apenas por mulheres. A idealizadora e editora de fotografia Érica Pascoal explica que a qualidade dos trabalhos das mulheres nos clipes é muito inferior à dos homens e isso se dá principalmente pela falta de investimento nessas artistas. “A ideia de trabalhar com audiovisual no rap veio justamente quando percebi que, dada as devidas proporções, os problemas que as mulheres do rap passavam eram parecidos com o que passava as mulheres do audiovisual. A ideia é somar forças de duas áreas em que as mulheres são vistas como segunda categoria”, completa.

Cenário cearense

Para o diretor Pedro Antino, os maiores mercados são no Sul e Sudeste, onde há a concentração dos grandes grupos musicais. Além disso, ele cita que os melhores cursos superiores dentro dessa área estão lá, o que torna a região um grande cenário de produção publicitária e de cinema. “Pelo que vejo, no Ceará, quem realmente vive de fazer videoclipes, é, principalmente, quem produz clipes de forró e sertanejo. E na cena underground cearense, a situação é mais complicada. Há muitas bandas e cantores emergentes, logo, sem muito orçamento, limitando um pouco as produções. Mas aqui, cria-se a oportunidade: sem tanto aparato, há de se ganhar na criatividade”, explica.

O diretor e músico Roger Capone fala que o mercado cearense nunca foi favorável para o videoclipe, principalmente por se trabalhar com bandas independentes que se auto-sustentam. “O videoclipe é mais divertido de se fazer do que é financeiramente rentável”, comenta. Ele fala que o mercado é bom para as variações da música, como captação de shows, lives e streaming.

O artista e o videoclipe

A cantora cearense ILYA se lançou como artista solo com o álbum Doces náufragos. Desse trabalho saiu o clipe de Se eu saio e Você Dança, um clipe mais autoral e, Balneabilidade Livre, que tem uma produção mais elaborada. Ela conta que cresceu assistindo videoclipes, e passava horas em canais como a MTV e a TV União. Apesar de não ter mais televisão na sua casa, o hábito continua, mas agora no Youtube. “Gosto muito mesmo das diversas possibilidades que o audiovisual agregam a música. É como um curta metragem que abre caminhos infinitos para a imaginação, narrativa, experimentos”, relata.

Ela explica que as ideias para os videoclipes foram surgindo em paralelo à produção musical. “ Agora que o disco está pronto e lançado quero ir contando histórias também visuais dessas canções. Até agora eu já tenho em mente certas vontades, algumas ideias vem em momentos bem aleatórios, é bom estar atenta para anotá-las e convocar depois quem vai construir junto”, conta.

ILYA fala que a importância do videoclipe na sua carreira se dá pelo fato da música tomar forma visual, além de ampliar  as relações de produção e alcance em um mesmo assunto. “Cada clipe vai abrindo percepções de funcionamento criativo e colaborativo. Acredito que cada vez mais experiências vão se acumulando e sempre será diferente, pois se trata de relações e trocas”, explica.

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