06/03/17

Cinema e política cultural com Eusélio Oliveira

Reprodução/Internet

A atividade cinematográfica como segmento da animação cultural no Ceará foi o tema dos debates da edição de 30 de março de 1983 do programa Opinião, com mediação do ator, diretor e professor da UFC Ricardo Guilherme. O convidado do programa foi o cineasta, escritor e professor Eusélio Oliveira. Nesta semana, a seção Memória do site da Rádio Universitária FM 107,9 MHz disponibiliza raro registro da voz de um dos pioneiros do cinema cearense.

Entre as décadas de 1950 e 1960, Eusélio foi estudante de Direito na UFC e atuou no movimento estudantil como integrante e fundador do Grupo Universitário de Cinema (Guci). Nessa mesma época, também foi crítico de cinema, com uma série de artigos publicados na imprensa local, e articulador de cineclubes na capital e no interior. Para além da exibição de filmes, foi um dos representantes da classe artística a defender publicamente a necessidade de formação sistemática em cinema e audiovisual. Em 1971, essas vivências foram posteriormente incorporadas ao Cinema de Arte Universitário (CAU), órgão vinculado à Pró-Reitoria de Extensão que seria embrionário da atual Casa Amarela Eusélio Oliveira (CAEO).

Era necessário trazer o cinema para o ambiente acadêmico, pois, segundo o cineasta, a universidade, por ser "celeiro da inteligência e do conhecimento", traria respaldo para a sétima arte. Em um contexto de precarização da política cultural no Ceará, Eusélio aborda os desafios da cultura, a exemplo da descontinuidade das atividades, a ausência de dotação orçamentária, e a precária ou falta absoluta de infraestrutura. Na entrevista, há citações a experiências anteriores dos anos 1960 de institucionalização das artes na UFC, empreendidas por B. de Paiva, no teatro, e pelo maestro Orlando Leite, na música. No início dos anos 1980, primeira década de funcionamento da própria Universitária FM, muito se discutiu sobre a criação de um Centro de Artes, sonho que só se concretizaria com a constituição do Instituto de Cultura e Arte (ICA) como unidade acadêmica em 2008.

O cineasta reflete a respeito da trajetória das artes no Ceará e do caráter educativo do cinema para registro e preservação da cultura popular. "Sem memória, sem respeito ao passado, não poderemos fazer nada. O presente será sempre uma incógnita, uma ansiedade, uma dúvida", afirma. Eusélio salientou também a diferença entre políticas culturais e eventos culturais, como uma ação mais comprometida e permanente ou apenas uma intenção de organizar festividades efêmeras e exibicionistas."O processo cultural é um compromisso com a nossa realidade, com o nosso povo e com as nossas mais sentidas aspirações", ressalta. Em dezembro de 2016, nas comemorações dos 45 anos de fundação da Casa Amarela Eusélio Oliveira, foi lançado Saravá! Eusélio, livro-reportagem sobre a vida e a obra do cineasta, assinado pela jornalista Beatriz Jucá. Em um trecho da obra, a autora cita essa mesma entrevista rara dos acervos da Universitária FM, que ora disponibilizamos para escuta nesta seção Memória.

O programa Opinião sobre atividade cinematográfica, cinema e política cultural com Eusélio Oliveira de 30 de março de 1983 teve apresentação de Ricardo Guilherme, produção de Maria Teresa Garcia e operação de áudio de Paulo Roberto Frazão. Ouça o programa completo:

Eusélio Oliveira

 03/01/1933 (Fortaleza/CE)  26/09/1991 (Fortaleza/CE)

Eusélio Oliveira é um dos principais nomes do audiovisual do Estado do Ceará, nos campos de exibição, formação e crítica cinematográfica. Participou do movimento concretista nas artes plásticas e na literatura no final dos anos 1950, e, na década seguinte, articulou o circuito de cineclubes em Fortaleza e no interior cearense com os projetos Mascate e Espaço Cultural da Embrafilme. Fundou o Cinema de Arte Universitário (atual Casa Amarela Eusélio Oliveira), equipamento cultural da Universidade Federal do Ceará dedicado à formação em fotografia, vídeo e cinema de animação. Em 1991, criou o Festival Vídeo Mostra Fortaleza, precursor do Festival Ibero-Americano de Cinema, o Cine Ceará. Morreu em 26 de setembro do mesmo ano, após ter sido baleado em uma briga de trânsito.

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